Publicado originalmente na Folha de S. Paulo, em 4 de Outubro de 2007. Por Contardo Calligaris.
EM GERAL , na literatura, no cinema e nas nossa fantasias, as histórias de amor acabam quando os amantes se juntam (é o modelo Cinderela) ou, então, quando a união esbarra num obstáculo intransponível (é o modelo Romeu e Julieta).No modelo Cinderela, o narrador nos deixa sonhando com um "viveram felizes para sempre", que seria a "óbvia" conseqüência da paixão. No modelo Romeu e Julieta, a felicidade que os amantes teriam conhecido, se tivessem podido se juntar, é uma hipótese indiscutível. O destino adverso que separou os amantes (ou os juntou na morte) perderia seu valor trágico se perguntássemos: será que Romeu e Julieta continuariam se amando com afinco se, um dia, conseguissem deitar-se juntos sem que Romeu tivesse que escalar a casa de Julieta até o famoso balcão? Ou se, em vez de enfrentar a oposição letal de suas ascendências, eles passassem os domingos em espantosos churrascos de família?
Talvez as histórias de amor que acabam mal nos fascinem porque, nelas, a dificuldade do amor se apresenta disfarçada. A luta trágica contra o mundo que se opõe à felicidade dos amantes pode ser uma metáfora gloriosa da dificuldade, tragicômica e inglória, da vida conjugal. O casal que dura no tempo, em regra, não é tema para uma história de amor, mas para farsa ou vaudeville -às vezes, para conto de terror, à la "Dormindo com o Inimigo". Durante décadas, Calvin Trillin escreveu uma narrativa de sua vida de casal, na revista "New Yorker" e em alguns livros (por exemplo, "Travels with Alice", viajando com Alice, de 1989, e "Alice, Let's Eat", Alice, vamos para a mesa, de 1978). Nesses escritos, que são só uma parte de sua produção, Trillin compunha com sua mulher, Alice, uma dobradinha humorística, em que Calvin era o avoado, o feio e o desajeitado, e Alice encarnava, ao mesmo tempo, a beleza, a graça e a sabedoria concreta de vida. À primeira vista, isso confirma a regra: a vida de casal é um tema cômico. Mas as crônicas de Trillin eram delicadas e tocantes: engraçadas, mas nunca grotescas. Trillin não zombava da dificuldade da vida de casal: ele nos divertia celebrando a alegria do casamento. Qual era seu segredo? Pois bem, Alice, com quem Trillin se casou em 1965, morreu em 2001. Trillin escreveu "Sobre Alice", que acaba de ser publicado pela Globo.
Esse pequeno e tocante texto de despedida desvenda o segredo de um amor e de uma convivência felizes, que duraram 35 anos. O segredo é o seguinte: Calvin e Alice, as personagens das crônicas, não eram artifícios literários, eram os próprios. A oposição entre os dois foi, efetivamente, o jeito especial que eles inventaram para conviver e prolongar o amor na convivência. Considere esta citação de um texto anterior, que aparece no começo de "Sobre Alice": "Minha mulher, Alice, tem a estranha propensão de limitar nossa família a três refeições por dia". A graça está no fato de que a "propensão" de Alice não é extravagante, mas é contemplada por Calvin como se fosse um hábito exótico. Alice é situada e mantida numa alteridade rigorosa, em que é impossível distinguir qualidades e defeitos: Calvin a ama e admira como a gente contempla, fascinado, uma espécie desconhecida num documentário do Discovery Channel. Se amo e admiro o outro por ele ser diferente de mim (e não apesar de ele ser diferente de mim), não posso considerar que minha maneira de ser seja a única certa. Se Calvin acha extraordinário que Alice acredite na virtude de três refeições diárias, ele pode continuar petiscando o dia todo, mas seu hábito lhe parecerá, no fundo, tão estranho quanto o de Alice.
Com isso, Calvin e Alice transformaram sua vida de casal numa aventura fascinante: a aventura de sempre descobrir o outro, cuja diferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossa obstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisam ser uma norma universal, nem mesmo a norma do casal.Há quem diga que o parceiro ideal é aquele que nos faz rir. Trillin completou a fórmula: Alice era quem conseguia fazê-lo rir dele mesmo. Com isso, ele descobriu a receita do amor que dura.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Desapressado
Por um instante. Durou apenas um instante.
Mas foi assim. Decidi ir dormir. Decidi deixá-lo lá, com seus próprios botões, sabendo que ele continuaria de pé. E, numa passagem inédita, eu não temi. Senti que eu podia sentir... sono. Quantos de nós hesitam em dormir sozinhos se nossos parceiros ficam de pé, porque consideramos tão essencial que se deitem juntos?
E quantos de nós não pode ir a um jantar se ele também não vai, porque estar junto significa mostrar-se junto?
Quantos de nós temem, e se retraem, e no infinito jogo de sedução hesitam em desligar o telefone, o computador ou se despedir, em um pavor aterrador de que amanhã ele não estará mais lá e o bom momento terá passado?
Apenas por um instante, eu não temi. Admiti meu sono, e uma conversa que naquele momento não estava funcionando, e eu o deixei. Não para sempre. Não com raiva. Apenas até amanhã. Eu me permiti, e ele me permitiu partir. Não sem antes me mostrar todo o carinho. E eu vi, e não voltei. Porque queria guardar aquilo comigo, e não deixar que mais algumas palavras que naquele dia não funcionavam estragassem um momento de ternura.
Estou entregue?
Não sei. Mas estou feliz.
Apenas por um instante.
Mas foi assim. Decidi ir dormir. Decidi deixá-lo lá, com seus próprios botões, sabendo que ele continuaria de pé. E, numa passagem inédita, eu não temi. Senti que eu podia sentir... sono. Quantos de nós hesitam em dormir sozinhos se nossos parceiros ficam de pé, porque consideramos tão essencial que se deitem juntos?
E quantos de nós não pode ir a um jantar se ele também não vai, porque estar junto significa mostrar-se junto?
Quantos de nós temem, e se retraem, e no infinito jogo de sedução hesitam em desligar o telefone, o computador ou se despedir, em um pavor aterrador de que amanhã ele não estará mais lá e o bom momento terá passado?
Apenas por um instante, eu não temi. Admiti meu sono, e uma conversa que naquele momento não estava funcionando, e eu o deixei. Não para sempre. Não com raiva. Apenas até amanhã. Eu me permiti, e ele me permitiu partir. Não sem antes me mostrar todo o carinho. E eu vi, e não voltei. Porque queria guardar aquilo comigo, e não deixar que mais algumas palavras que naquele dia não funcionavam estragassem um momento de ternura.
Estou entregue?
Não sei. Mas estou feliz.
Apenas por um instante.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Pequenas vontades.
Eu tenho medo. Hoje em dia, acho que todos têm. Existe gente por aí querendo desesperadamente se livrar do medo, encontrar um bálsamo para as suas angústias. Acho que, agora, todos nós já sabemos que estas pequenas bonanças são momentos no tempo, alguma coisa pela qual antes você daria tudo, e depois você quase se arrepende.
Queria confessar meu maior segredo.
Não quero viver sem medo. Quero apenas uma mão junto à minha quando eu senti-lo até o fundo da minha alma.
Queria confessar meu maior segredo.
Não quero viver sem medo. Quero apenas uma mão junto à minha quando eu senti-lo até o fundo da minha alma.
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Desassossego
Uma fadinha me falou sobre desassossego. Ela não fala pela linguagem direta; prefere ela falar pelo afeto, porque ela conhece a poesia irregular das ruas do amor. O que ela me revelou foi isto:
Não se arrependa de sua escolha. Carregue consigo a dor do desassossego, porque ela é a única que lhe permite vislumbrar a plenitude.
Não se torne arrogante pela sua possibilidade. Admire o divino em sua forma mais bela, o amor.
Não ame pela metade. Porque amor é inteiro, eu sou inteiro, e eu mereço mais do que eu mesmo me permito. Eu mereço Ser.
Não esqueça do que é fundamental. E fundamental são vocês.
É assim que o desassossego placidamente se transforma numa enorme contemplação... porque com minhas fadas e gnomos eu não me sinto sozinho. Espero que ela saiba, de algum modo, que eu a entendo mais do que dou a entender.
Não se arrependa de sua escolha. Carregue consigo a dor do desassossego, porque ela é a única que lhe permite vislumbrar a plenitude.
Não se torne arrogante pela sua possibilidade. Admire o divino em sua forma mais bela, o amor.
Não ame pela metade. Porque amor é inteiro, eu sou inteiro, e eu mereço mais do que eu mesmo me permito. Eu mereço Ser.
Não esqueça do que é fundamental. E fundamental são vocês.
É assim que o desassossego placidamente se transforma numa enorme contemplação... porque com minhas fadas e gnomos eu não me sinto sozinho. Espero que ela saiba, de algum modo, que eu a entendo mais do que dou a entender.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Se há um problema com o indivíduo...
Este é um tempo confuso, enevoado, daqueles em que nós às vezes ficamos sem luz por causa da sombra de um tenro desconhecido.
These are the days of the open hand
They will not be the last
Look around now
These are the days of the beggars and the choosers
Ontem, quarta-feira, um homem subiu desesperado a uma torre de energia em São Paulo, deixando a Zona Oeste, e minha faculdade, sem luz.
This is the year of the hungry man
Whose place is in the past
Hand in hand with ignorance
And legitimate excuses
Reacendeu um debate. Por que um homem sem energia teria força para subir numa torre de energia, arriscar a própria vida e prejudicar milhares de pessoas? Teria ele o direito? Não seria melhor que se matasse logo e nos deixasse em paz? Eu perdi minha aula, e parte do meu tempo...
The rich declare themselves poor
And most of us are not sure if we have too much
But we'll take our chances
Because God's stopped keeping score
O taxista diz que ele só quer chamar a atenção. O psicólogo se comove. Eu ando na rua ouvindo o temor de uma multidão que foi tocada em lugares infinitos encerrados em uma única alma, como todos fossem, por um momento, aquele homem... e ninguém quer sê-lo, ninguém quer sofrer, ninguém quer morrer, e logo nos afastamos, e o culpamos, e o queremos morto de uma vez...
I guess somewhere along the way
He must have let us all out to play
Turned his back and all God's children
Crept out the back door
Nós encontramos o medo. A sombra. O temor. Meu Deus, como é difícil viver num mundo em que a sua responsabilidade também é minha, e eu já não consigo simplesmente te culpar e virar as costas... nós somos maiores que nós mesmos, e tão infimamente pequenos...
And it's hard to love
There's so much to hate
Hanging on to hope
When there is no hope to speak of
And the wounded skies above
Say it's much too late
We'll maybe we should all be
Praying for time
É tão difícil amar ou odiar. É curioso e dilacerante conviver com opostos dentro de si... e o homem, que subiu naquela maldita torre, como eu posso assumir tamanha responsabilidade e não fazer nada... é porque ainda não conseguimos. Ainda não entranhou na nossa alma. Mas o momento há de vir, quando os heróis seremos nós, simplesmente por conseguirmos suportar a minha e a sua angústia... em mim.
These are the days of the empty hand
Oh you hold on to what you can
And charity is a coat you wear
Twice a year
This is the year of the guilty man
Your television takes a stand
And you find that what was over there
Is over here
Eu só sei que eu estendo minhas mãos, e cada um deles pega em uma, e o tanto que eles me drenam também me sustentam. Porque eles, eu amo, eles, me amam, e só nós conseguiríamos... tirar aquele homem daquela torre. E paramos metade da maior cidade do país porque acreditamos que a vida dele valia à pena. Por um momento eu senti... orgulho. De nós.
So you scream from behind your door
Say what's mine is mine and not yours
I may have too much
But I'll take my chances because God stopped keeping score
And you cling to the things they sold you
Did you cover your eyes when they told you
That he can't come back
Because he has no children to come back for
Porque talvez deus esteja morto, ou apenas tirado férias. Mas enquanto isso, nós precisamos mostrar que não somos mais suas crianças. Somos seus filhos crescidos. Somos adultos? Tentamos... porque se há um problema com o indivíduo, há um problema comigo.
These are the days of the open hand
They will not be the last
Look around now
These are the days of the beggars and the choosers
Ontem, quarta-feira, um homem subiu desesperado a uma torre de energia em São Paulo, deixando a Zona Oeste, e minha faculdade, sem luz.
This is the year of the hungry man
Whose place is in the past
Hand in hand with ignorance
And legitimate excuses
Reacendeu um debate. Por que um homem sem energia teria força para subir numa torre de energia, arriscar a própria vida e prejudicar milhares de pessoas? Teria ele o direito? Não seria melhor que se matasse logo e nos deixasse em paz? Eu perdi minha aula, e parte do meu tempo...
The rich declare themselves poor
And most of us are not sure if we have too much
But we'll take our chances
Because God's stopped keeping score
O taxista diz que ele só quer chamar a atenção. O psicólogo se comove. Eu ando na rua ouvindo o temor de uma multidão que foi tocada em lugares infinitos encerrados em uma única alma, como todos fossem, por um momento, aquele homem... e ninguém quer sê-lo, ninguém quer sofrer, ninguém quer morrer, e logo nos afastamos, e o culpamos, e o queremos morto de uma vez...
I guess somewhere along the way
He must have let us all out to play
Turned his back and all God's children
Crept out the back door
Nós encontramos o medo. A sombra. O temor. Meu Deus, como é difícil viver num mundo em que a sua responsabilidade também é minha, e eu já não consigo simplesmente te culpar e virar as costas... nós somos maiores que nós mesmos, e tão infimamente pequenos...
And it's hard to love
There's so much to hate
Hanging on to hope
When there is no hope to speak of
And the wounded skies above
Say it's much too late
We'll maybe we should all be
Praying for time
É tão difícil amar ou odiar. É curioso e dilacerante conviver com opostos dentro de si... e o homem, que subiu naquela maldita torre, como eu posso assumir tamanha responsabilidade e não fazer nada... é porque ainda não conseguimos. Ainda não entranhou na nossa alma. Mas o momento há de vir, quando os heróis seremos nós, simplesmente por conseguirmos suportar a minha e a sua angústia... em mim.
These are the days of the empty hand
Oh you hold on to what you can
And charity is a coat you wear
Twice a year
This is the year of the guilty man
Your television takes a stand
And you find that what was over there
Is over here
Eu só sei que eu estendo minhas mãos, e cada um deles pega em uma, e o tanto que eles me drenam também me sustentam. Porque eles, eu amo, eles, me amam, e só nós conseguiríamos... tirar aquele homem daquela torre. E paramos metade da maior cidade do país porque acreditamos que a vida dele valia à pena. Por um momento eu senti... orgulho. De nós.
So you scream from behind your door
Say what's mine is mine and not yours
I may have too much
But I'll take my chances because God stopped keeping score
And you cling to the things they sold you
Did you cover your eyes when they told you
That he can't come back
Because he has no children to come back for
Porque talvez deus esteja morto, ou apenas tirado férias. Mas enquanto isso, nós precisamos mostrar que não somos mais suas crianças. Somos seus filhos crescidos. Somos adultos? Tentamos... porque se há um problema com o indivíduo, há um problema comigo.
sábado, 2 de agosto de 2008
A Questão de Rosana
Está tudo muito confuso.
Foram exigidas mudanças de mim. Embora tenha sido através de pessoas, penso que a vida, ou o seu guardião mais imortal, tenha falado pela boca daqueles que me cercam. Quando nós atentamos à nossa própria vida, torna-se impressionante - para não dizer que é especialmente numinosa - a quantidade de pequenos lampejos da mesma qualidade que desejam agregar-se ao nosso ser. Desejam ou precisam.
Agora pouco, fui para sala. Ouvi as duas músicas de Wicked. Eu acredito que esteja começando a entender melhor porque este musical mexe tanto comigo. Ele fala de uma bruxa rejeitada, culta e inteligente, que desejou se tornar grande para que pudesse superar a falta de valor que sentia no âmago de seu ser, por sua própria ontologia. E de uma outra bruxa amada, que desejou se tornar grande para integrar um símbolo de poder.
A bruxa que havia provado o amor desejava o poder. A bruxa que havia sentido o poder desejava o amor.
Penso que essa batalha é uma das mais intensas travadas diariamente dentro de mim. Ao final da história, a bruxa que buscava se tornar amada através do valor do poder descobriu, nas entranhas políticas que comandavam o mundo, as falhas éticas e uma maneira pérfida de manipular o coletivo. Convocada por seu sentido profundo de retidão, ela foi obrigada a assumir a luta e foi condenada pelo povo manipulado pelos políticos. Ironicamente, a bruxa que desejava o amor e que provou o poder se tornou a bruxa má, ao se opor aquilo que ela sabia estar errado.
A outra bruxa conseguiu o apoio dos políticos, mas seu coração que já havia provado o amor não lhe deixou abandonar a outra bruxa, que havia se tornado uma fiel amiga. Sem a inflexibilidade daqueles que tiveram que enrijecer para sobreviver sem amor, a bruxa conseguiu sobreviver a manipulação e ajudar a bruxa má a distância, enquanto tornou-se a afamada bruxa boa para todo o povo.
O que nos conta a história? Para mim, esta história basicamente fala de uma profunda amizade que sustenta e permite às duas sobreviverem. Mas mais do que isso, mostra a bruxa má que para sustentar a força de caráter e fazer o que sabemos ser o certo, é necessário um sacrifício. Nós precisamos sacrificar aquilo que queremos para que possamos encontrar o caminho. Quando a bruxa má finalmente desistiu de conquistar o amor alheio através do poder - e permitiu-se a transformação em bruxa má, sendo para sempre odiada, ela encontrou alguém para amar.
A bruxa boa, por sua vez, teve de encarar a eterna melancolia de ver sua amiga e o amante partirem, porque para se manter entre todos e provar do poder, ela teve de abrir mão do amor.
É claro que ninguém abre mão de uma coisa ou de outra. O que ocorre, na verdade, é que somos chamados a mudar nossas posições, transformarmo-nos por inteiro, e isso acarreta em sacrifício.
Eu preciso mudar.
Preciso, na verdade, fazer o caminho da bruxa má. Na medida em que nos levantamos, e questionamos, bradamos uma bandeira própria, erguem-se as resistências contra nós. É necessário muita correção e força para escolhermos o caminho certo. Entretanto... a segunda parte desse caminho é justamente podermos desistir daquilo que desejávamos. O amor não pode ser conseguido através das inflexões do poder. O amor tem fenomenologia própria, e ele surge justamente no espaço em que o poder se resigna e adormece, nos deixando vulneráveis e expostos. Nesta vulnerabilidade o amor incide, penetra, desloca-se, centrifuga, preenche, e faz com que nós enxerguemos um raio de luz não muito longe para que possamos continuar. O amor confunde-se com a esperança porque ele é nosso único recurso quando, como seres esgotados, lançamos no mundo um pedido desesperado de ajuda para podermos continuar.
O passo agora, creio eu, seja desistir de alcançar o amor pelo poder. É necessário abrir mão do poder neste momento. E isto é um sacrifício: porque sem poder não brilhamos, sem poder deixamos de ser sujeito, sem poder não construimos. No amor só podemos caminhar juntos, só podemos nos ajudar e nos manter, mas podemos sem qualquer dúvida ser.
O momento de abandonar o poder é aquele no qual nos tornamos mais vulneráveis. Deixar a porta aberta ao invés de defendê-la como o mais forte guerreiro é o verdadeiro ato de coragem.
Foram exigidas mudanças de mim. Embora tenha sido através de pessoas, penso que a vida, ou o seu guardião mais imortal, tenha falado pela boca daqueles que me cercam. Quando nós atentamos à nossa própria vida, torna-se impressionante - para não dizer que é especialmente numinosa - a quantidade de pequenos lampejos da mesma qualidade que desejam agregar-se ao nosso ser. Desejam ou precisam.
Agora pouco, fui para sala. Ouvi as duas músicas de Wicked. Eu acredito que esteja começando a entender melhor porque este musical mexe tanto comigo. Ele fala de uma bruxa rejeitada, culta e inteligente, que desejou se tornar grande para que pudesse superar a falta de valor que sentia no âmago de seu ser, por sua própria ontologia. E de uma outra bruxa amada, que desejou se tornar grande para integrar um símbolo de poder.
A bruxa que havia provado o amor desejava o poder. A bruxa que havia sentido o poder desejava o amor.
Penso que essa batalha é uma das mais intensas travadas diariamente dentro de mim. Ao final da história, a bruxa que buscava se tornar amada através do valor do poder descobriu, nas entranhas políticas que comandavam o mundo, as falhas éticas e uma maneira pérfida de manipular o coletivo. Convocada por seu sentido profundo de retidão, ela foi obrigada a assumir a luta e foi condenada pelo povo manipulado pelos políticos. Ironicamente, a bruxa que desejava o amor e que provou o poder se tornou a bruxa má, ao se opor aquilo que ela sabia estar errado.
A outra bruxa conseguiu o apoio dos políticos, mas seu coração que já havia provado o amor não lhe deixou abandonar a outra bruxa, que havia se tornado uma fiel amiga. Sem a inflexibilidade daqueles que tiveram que enrijecer para sobreviver sem amor, a bruxa conseguiu sobreviver a manipulação e ajudar a bruxa má a distância, enquanto tornou-se a afamada bruxa boa para todo o povo.
O que nos conta a história? Para mim, esta história basicamente fala de uma profunda amizade que sustenta e permite às duas sobreviverem. Mas mais do que isso, mostra a bruxa má que para sustentar a força de caráter e fazer o que sabemos ser o certo, é necessário um sacrifício. Nós precisamos sacrificar aquilo que queremos para que possamos encontrar o caminho. Quando a bruxa má finalmente desistiu de conquistar o amor alheio através do poder - e permitiu-se a transformação em bruxa má, sendo para sempre odiada, ela encontrou alguém para amar.
A bruxa boa, por sua vez, teve de encarar a eterna melancolia de ver sua amiga e o amante partirem, porque para se manter entre todos e provar do poder, ela teve de abrir mão do amor.
É claro que ninguém abre mão de uma coisa ou de outra. O que ocorre, na verdade, é que somos chamados a mudar nossas posições, transformarmo-nos por inteiro, e isso acarreta em sacrifício.
Eu preciso mudar.
Preciso, na verdade, fazer o caminho da bruxa má. Na medida em que nos levantamos, e questionamos, bradamos uma bandeira própria, erguem-se as resistências contra nós. É necessário muita correção e força para escolhermos o caminho certo. Entretanto... a segunda parte desse caminho é justamente podermos desistir daquilo que desejávamos. O amor não pode ser conseguido através das inflexões do poder. O amor tem fenomenologia própria, e ele surge justamente no espaço em que o poder se resigna e adormece, nos deixando vulneráveis e expostos. Nesta vulnerabilidade o amor incide, penetra, desloca-se, centrifuga, preenche, e faz com que nós enxerguemos um raio de luz não muito longe para que possamos continuar. O amor confunde-se com a esperança porque ele é nosso único recurso quando, como seres esgotados, lançamos no mundo um pedido desesperado de ajuda para podermos continuar.
O passo agora, creio eu, seja desistir de alcançar o amor pelo poder. É necessário abrir mão do poder neste momento. E isto é um sacrifício: porque sem poder não brilhamos, sem poder deixamos de ser sujeito, sem poder não construimos. No amor só podemos caminhar juntos, só podemos nos ajudar e nos manter, mas podemos sem qualquer dúvida ser.
O momento de abandonar o poder é aquele no qual nos tornamos mais vulneráveis. Deixar a porta aberta ao invés de defendê-la como o mais forte guerreiro é o verdadeiro ato de coragem.
domingo, 18 de maio de 2008
Eu não queria postar
Eu não queria postar. As implicações da escrita são essas: agora está lá, escrito, documentado, revelado, descoberto, provado, assuntado, refletido... e às vezes, nada disso é verdade.
E eu não queria postar. Porque significa parar, sentar, e frequentemente, olhar-se no espelho com olhos de quem ama, mas precisa agir in order to crescer.
Mas eu não queria postar. Todos esses sentimentos aqui a minha volta, é um turbilhão de dor e felicidade irrefletidas e eu fico a rodar, fico a aceitar, e às vezes tudo parece tão normal, às vezes tudo parece tão neurótico, às vezes tudo parece... do único jeito que poderia ser mesmo.
É que eu não queria postar. Não queria te falar que estou só, e às vezes sofro por isso, às vezes não. Que estou ascendendo profissionalmente, e muito mais do que isso, estou virando um homem de propriedade e capacidade, que logo irá se sustentar e dará conta do mundo material, emocional, espiritual, intelectual... mesmo que só por meia-hora.
Entretanto eu, eu não queria postar. Postar é dizer que tudo está caminhando bem, mas às vezes eu me sinto um menino de sete anos, louco de vontade de chorar. Que a sensação me abala, que o sentimento me toma, e eu me sinto sozinho, abandonado, mesmo sabendo, de cabeça e coração, que eu realmente não sou nem um, nem outro.
Pois, eu não queria postar. A escrita me revela, me deixa nu, e me relembra que eu gosto de me exibir, e me doar, e me mostrar, e compartilhar... e às vezes admitir isto em frente a uma tela de computador soa um tanto... eletrológico.
Por isso, eu não queria postar.
E eu não queria postar. Porque significa parar, sentar, e frequentemente, olhar-se no espelho com olhos de quem ama, mas precisa agir in order to crescer.
Mas eu não queria postar. Todos esses sentimentos aqui a minha volta, é um turbilhão de dor e felicidade irrefletidas e eu fico a rodar, fico a aceitar, e às vezes tudo parece tão normal, às vezes tudo parece tão neurótico, às vezes tudo parece... do único jeito que poderia ser mesmo.
É que eu não queria postar. Não queria te falar que estou só, e às vezes sofro por isso, às vezes não. Que estou ascendendo profissionalmente, e muito mais do que isso, estou virando um homem de propriedade e capacidade, que logo irá se sustentar e dará conta do mundo material, emocional, espiritual, intelectual... mesmo que só por meia-hora.
Entretanto eu, eu não queria postar. Postar é dizer que tudo está caminhando bem, mas às vezes eu me sinto um menino de sete anos, louco de vontade de chorar. Que a sensação me abala, que o sentimento me toma, e eu me sinto sozinho, abandonado, mesmo sabendo, de cabeça e coração, que eu realmente não sou nem um, nem outro.
Pois, eu não queria postar. A escrita me revela, me deixa nu, e me relembra que eu gosto de me exibir, e me doar, e me mostrar, e compartilhar... e às vezes admitir isto em frente a uma tela de computador soa um tanto... eletrológico.
Por isso, eu não queria postar.
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